A maratona de Boston é, e sempre foi, A maratona. Uma das mais democráticas e de difícil acesso já que quase só se consegue entrar por via de submissão de tempo numa outra prova, tempos esses já algo exigentes (para o meu escalão, seria sempre algo abaixo das 3 horas). É também a mais antiga maratona do mundo. É figurativa, e literalmente, o unicórnio das maratonas.

Quando encetei este meu objectivo (em 2019, em Chicago) de cumprir as 6 majors, Boston foi sempre uma incógnita já que os tempos que precisava de fazer ainda eram muito longínquos. Ano após ano o caminho foi-se traçando, os tempos foram melhorando até que finalmente me encontrava em forma de fazer um BQ. Em Nova Iorque, em 2022, fiz 2h57 (quando na altura o tempo alvo era 3h05 para o meu escalão 35-39 anos) e um ano mais tarde, em Berlim, 2h50.

Volvidos dois anos nunca diria que o meu problema não seria qualificar-me para Boston mas sim, após assegurar um dorsal, conseguir estar na linha de partida.

Estando originalmente definido para correr Boston em 2024, bem cedo no ano tive uma lesão algo grave – uma fractura de stress – que me deixou arredado da corrida durante quatro meses e, consequentemente, também da maratona de Boston. Nem cheguei a saber qual seria o meu número de dorsal.

O diagnóstico da fractura de stress

Felizmente, o tempo que havia feito em Berlim ainda estava dentro da janela de qualificação para 2025 pelo que consegui inscrever-me novamente e uma vez mais conseguir um dorsal para esta mítica prova.

Em caminho oposto a 2024, este bloco de treinos em 2025, começado em Janeiro até Abril correu bastante bem – como poderão ter visto pelos meus relatos semanais – tendo conseguido uma evolução fantástica nos treinos como resultados muito interessantes nas provas que fui fazendo (com recordes pessoais aos 10Kms e à meia maratona).

Chegava assim a Boston com perspectivas muito boas e objectivos de ambicionar um novo recorde pessoal, por ventura pelos 2h48, algo que me parecia muito fazível mesmo tempo em conta o perfil da prova.

Cheguei à cidade de Boston numa sexta-feira à tarde e Sábado fiz a primeira shakeout run: 30’ a correr fácil e que foram, de facto, bastante fáceis. Senti-me ligeiro e a correr soltinho. No entanto, e pelos vistos, não estava tão solto assim. Depois do treino fui levantar o dorsal (experiência fantástica ter finalmente aquele dorsal, #4172,  nas mãos) e passear um pouco pela cidade até à hora do almoço. Durante esse passeio comecei a sentir uma tensão crescente na parte frontal da perna, logo acima do tornozelo, chegando ao ponto de até me afectar a passada a andar. Desastre!

Durante a tarde fiquei já pelo quarto de hotel, a tentar tudo e um par de botas, até que acabei por mandar mensagem ao Ernesto Ferreira (que se corres de certeza que conheces, a cara da clinica GFD Fisioterapia e Osteopatia). Já era tarde em Portugal mas tinha a certeza que o Ernesto, podendo, iria responder. E assim foi, passado um bocado recebi uma video-chamada e rapidamente foi possível chegar a um possível diagnostico: ponto gatilho do extensor longo dos dedos. Apesar de me doer no fundo da perna o trabalho de pressão (e de pistola de massagem) que tinha de fazer era quase junto ao joelho! Assim fiz, juntamente com Voltaren e gelo. 

Consegui, por algum milagre, marcar ainda uma massagem para o dia seguinte, Domingo, para tentar libertar ao máximo a tensão e dor acumulada naquela zona. Fiz assim a referida massagem, e sempre a continuar a fazer auto-massagem, pistola de massagem, Voltaren e anti-inflamatórios a verdade é que, apesar de alguma melhoria, a dor ainda lá continuava mesmo ao andar.

Posso-vos dizer que me fui deitar no Domingo (véspera da prova) sem saber se iria apanhar o autocarro para a partida. Deixei, ainda assim, tudo pronto e segunda-feira, após uma noite surpreendentemente bem dormida, decidir ir: nem que só desse para fazer 100 metros tinha que tentar.

Cheguei à zona dos autocarros, já depois de deixar o saco no bengaleiro, e foi muito giro, como já é habitual nestas provas, ver as pessoas a chegarem de todo o lado. Estas horas pré-prova foram provavelmente as mais calmas que alguma vez enfrentei. Dadas as condicionantes ia sem absolutamente pressão nenhuma. Às 6:45 da manhã entrámos então nos autocarros – os famosos autocarros amarelos! – e durante a viagem até à zona de partida (que durou os seus 30~40 minutos) algo se passou e a minha perspectiva foi mudando e acabei por firmar para mim mesmo que, desse por onde desse, a prova naquele dia ia ser para terminar!

Fomos então deixados no Liceu de Hopkinton pelas 7:30 da manhã, ainda com uma longa espera até a prova efectivamente começar. Era então tempo de encontrar um bom sítio para me encostar (de preferência ao sol, já que a manhã estava fresca, com cerca de 8ºC) e esperar. Por volta das 8:50/9h comecei a preparar o equipamento e a tirar a primeira camada de roupa (existiam múltiplos pontos de recolha de roupa no local) e começar a aquecer já que estava estabelecido para as 9:20h a saída dos atletas da primeira vaga (onde eu me encontrava) deste local inicial até à efectiva zona de partida (a cerca de 1km de distância). Foi durante este quilómetro que eu corri pela primeira vez após a lesão. E foi aqui que foi possível perceber que, ainda estando lá a dor a coisa seria gerível, caso não piorasse.

Chegando à zona de partida aproveitei para mais uma ida à casa de banho e fui para a minha caixa de partida ainda com tempo de sobra. Assisti ainda à partida da elite feminina e, minutos antes do tiro de partida, ocorreu o sempre solene momento em que o hino americano foi cantado, com direito a passagem de dois caças da força aérea americana!!

Dez horas em ponto e finalmente (após um ano e meio!) lá saí de Hopkinton com 42km e 195m pela frente. Tal como referi anteriormente, o plano inicial estava obviamente descartado e, pelo menos inicialmente, iria gerir ritmos e perceber que sensações ia tendo. Rapidamente percebi que a lesão acusava mais durante as descidas e acalmava substancialmente ao subir e, assim, aproveitei isso para ir modelando o esforço. Nas descidas pura e simplesmente metia o ponto-morto e deixa-me ir a um ritmo confortável e aproveitava as subidas para pressionar um pouco mais. Creio que este sobe e desce, normalmente muito pouco bem vindo, foi também o que me “salvou” já que acredito que se estivesse numa maratona plana iria ter maiores dificuldades em gerir a questão da lesão. Há males que vêm por bem!

Apesar de uma subida ou outra os primeiros 10Km, passando por Ashland e chegando a Framingham, são praticamente a descer pelo que fui sempre gerindo bem o ritmo e percebi que, a não ser que algo catastrófico acontecesse, à partida iria conseguir acabar a prova e deveria dar para sub 3 horas. Dos 10 aos 15km fui-me sempre concentrando na questão de não abusar nas descidas (não só porque poderia agravar a lesão mas porque também poderia pagar a factura mais tarde) e tentar não perder demasiado tempo nas subidas. A verdade é que acabei por ser extremamente consistente durante este período já que, entre o 9º e o 15º  quilómetros os meus splits foram todos entre 4:00/km e 4:01/km.

Em paralelo com este foco no ritmo ia também sempre com cuidado de cumprir não só todos os abastecimentos (praticamente um a cada milha, o que foi excelente) como a minha táctica para a nutrição: a cada 30 minutos um gel e uma capsula de sais (com excepção do ultimo que fiz, como sempre faço, às 2h20 de corrida).

Aproximava-se, então, o quilómetro 20 e um dos momentos mais marcantes desta prova. Até aqui – e algo que pautou toda a prova e uma das razões que a torna mítica – o apoio foi sempre excelente. Quilómetros e quilómetros de estrada ininterruptamente ladeados de apoiantes (pelo que vi perfazendo mais de 500 mil ao longo de todo o percurso) a fazer um barulho indescritível. Cartazes, música, barbecues e tudo mais. Uma festa tão ou maior que a própria corrida. Mas o quilómetro 20 é diferente. Ao quilómetro 20 está sediado o Wellesley, um colégio de artes só para raparigas. E é, assim, aqui o famoso Wellesley Scream Tunnel (literalmente traduzido para túnel/corredor de gritos de Wellesley). O barulho e apoio que aqui é dado é algo provavelmente sem par. Não estou a exagerar quando digo que a 300/400m de distância já ouvia o barulho que por lá se fazia! Foi algo que queria que nunca acabasse e foi preciso ter bastante cabeça para que o ritmo de corrida não acelerasse demasiado. O número de cartazes, apoios (e beijos!) que eram oferecidos eram sem fim.

Após este momento alto chegava outro, que era o cruzar da meia maratona e o reafirmar das minhas sensações que, à partida, iria conseguir levar a coisa a bom porto e, por ventura, ainda dar para algo na casa das 2h55m. No entanto o pior ainda estava para vir. A maratona de Boston é conhecida pelo seu acumulado mas a verdade é que o parte pernas verdadeiro acontece entre os quilómetros 26 e 33. Aqui, uma sequência de 4 subidas, cada uma pior que a outra, são um acordar para a realidade, especialmente para quem não soube gerir bem ritmos até então. No pulso levava uma pulseira a marcar o ritmo a cada quilómetro (que cedo se tornou inútil nesse aspecto) mas que além disso tinha marcada com cores consoante o acumulado de cada quilómetro: verde a descer, amarelo a subir, vermelho subidas a sério. 

Chegava assim ao quilómetro 25 e tinha 4 vermelhos pela frente: as infames Newton Hills. Nesta altura do campeonato posso dizer que a lesão já pouco me incomodava mas, para não me ficar a rir, outras coisas surgiram então, especialmente toques no gémeo e isquiotibiais da perna oposto (provavelmente por ir a compensar enquanto corrida). Felizmente nenhum se converteu em cãibra (novamente o constante sobe e desce ajudou a isto também) o que foi muito positivo.

Voltemos então às Newton Hills. Fiz a primeira relativamente bem. Verdade seja dita, como geri bastante o ritmo nos momentos iniciais da prova acredito que estas subidas não tenham sido o choque que de outra maneira seriam mas é o que é. Foquei-me na subida e em manter o ritmo mais vivo possível já que para recuperar tinha sempre as descidas. Nesta altura sentia também já que estava a começar a apanhar muitos atletas. Recuperado da primeira já estava expectante para a segunda. Na primeira viragem que fazemos (a prova é quase toda a seguir em frente!), à direita depois do quartel dos bombeiros de Newton, lá se nos aparece a segunda subida, mais íngreme do que calculava. Mesma técnica que na anterior: manter foco na passada e com força tentar imprimir um ritmo vivo. Mais uma feita. Faltam duas!

A terceira, um pouco mais longa mas menos íngreme também se fez e, com cerca de 36 quilómetros feitos, deparava-me com a heartbreak hill (literalmente subida parte corações). Analisando a frio aquela subida de cerca de 800m não é nada do outro mundo. Mas acreditem que com 36kms (e já muito acumulado) nas pernas aquilo parece um muro. Fui com força para a subida e, uma vez mais, Boston não desapontou. Não havia um metro livre de cada lado daquela estrada, com milhares de pessoas a puxar e a gritar por nós e que nos figurativamente nos empurravam colina acima. O facto de estar a passar cada vez mais atletas também foi um alento adicional para pressionar e conseguir chegar ao cume da Newton Hill. E é que festa que havia “lá em cima” com um apoio indescritível!

Heartbreak Hill

Foi também um momento de alívio já que a parte mais taxativa da prova estava para trás. Os restantes 6~7 quilómetros não iram ser grátis já que, apesar de haver bastante descida (o que só por si poderá dar cabo dos músculos, já muito desagastados) como ainda havia pontuais subidas aqui e ali que eram sempre um esforço adicional.

Fui tentando, assim, impor um ritmo de “cruise control” que me permitisse levar a prova até final. Obviamente não iria para recorde pessoal mas ainda deveria dar para um tempo interessante. Foram-se passando os quilómetros e o apoio do público não cessava. Pelo contrário, estávamo-nos finalmente a aproximar de Boston e o número de apoiantes, assim, aumentava ainda mais!

E a cerca de três quilómetros do fim surge algo inesperado. Sinto um toque no ombro esquerdo e quando olho vejo um português a dizer-me “bora lá! que isto está quase”. Claramente ele ia bem e eu aproveitei o comboio e fui atrás dele. Trocámos umas breves palavras e ele perguntou-me se era a minha primeira vez em Boston. “Sim é!” Não sei precisar quantas mas ele já levava muitas, mais de 10. Campeão! Seguimos então juntos. Ao inicio fui com alguma dificuldade atrás dele mas progressivamente comecei a seguir ao lado dele e, posteriormente, fui eu a puxar. Fazíamos os dois a festa, a pedir o apoio do publico e o publico a reagir com broás enormes! Posso dizer que estes três últimos quilómetros foram os mais rápidos da prova mesmo com o vento já de frente nesta altura.

Milha 25 passada e uma das ultimas subidas feita, com o vislumbre da publicidade à CITGO num prédio (este é um daqueles marcos que que correu, ou vai correr, Boston não esquece!). Mais uma descida e subida (um cruel túnel que podia muito bem ser evitado ahah) e a coisa já está quase feita. Só faltavam duas coisas. Virar à direita para a rua Hereford. E virar à esquerda para Boylston. E ei-la. A meta de Boston lá ao fundo, a cerca de 500 metros. Esta última curva é inolvidável e o barulho que era feito e algo de indescritível. Fiz aquela recta praticamente sempre de braços no ar, a pedir o apoio do público (e a correr abaixo de 3:50min/km xD). Foram 500 metros mas podia ser mais, muito mais daquele êxtase todo que consegui desfrutar a cada metro que passava). E o cruzar da meta.

Pela primeira vez não fiz recorde pessoal numa maratona. Mas posso continuar a dizer que cada maratona que corri foi melhor que a anterior. 2h54m27m. 3 minutos e meio mais lento que o meu recorde pessoal, feito em Berlim em 2023. Mas feitos depois de uma fractura de stress que me impossibilitou de correr durante 4 meses e impediu de participar em Boston em 2024. Mas feitos depois de uma lesão dois dias antes. Mas feitos depois de no dia anterior me ter ido deitar sem saber se sequer ia começar a prova. Mas feitos numa prova com com praticamente 280m de acumulados. Mas feitos na Maratona de Boston, a mais antiga maratona do mundo.

Foi, assim, com enorme alegria e satisfação que cruzei aquela meta. Ainda procurei, sem sucesso, o meu parceiro português (que perdi naquela recta final) e acabei por seguir em frente para ir buscar o tão desejado unicórnio. Que medalha bonita que é. Aproveitei para tirar algumas fotos, ir buscar o saco ao bengaleiro (o vento já estava a ficar forte e o frio começava a ser muito) e, finalmente, ligar para Portugal para a familia e amigos!!!

Fiz uma paragem rápida no hotel para tomar banho e ver os estragos que ficaram (algumas unhas, mais do que o normal, mas que nunca acusaram durante a prova!) e voltar para o local da chegada porque queria continuar a viver aquela atmosfera, quer na rua da meta, quer nas ruas paralelas. É emocionante ver o continuo apoio, mesmo para os corredores mais lentos. A atmosfera em Boston é fantástica.

Como já referi inúmeras vezes, a corrida parece um desporto solitário mas é, mais vezes do que se pensa, um desporto de equipa. E a equipa que tenho à minha volta é fantástica.

Queria começar por agradecer ao David Matos. Começamos a trabalhar no início de 2024 e logo cedo o desastre aconteceu, com a fractura de stress. Valeu a experiência do David em treino de triatlo pelo que rapidamente me começou a prescrever bicicleta para que, minimizasse ao máximo a perca de fitness. E assim durante quase 4 meses fiz muitos e muitos quilómetros de treino de bicicleta com intensidade e provas pelo meio. O que veio depois disso, com o regresso à corrida, primeiras provas e finalmente recordes pessoais aos 10kms e à meia maratona foram brutais. O difícil não foi treinar para a maratona ou a maratona em si. Difícil foi estar sem conseguir correr durante 4 meses e o David tornou isso muito mais gerível. Durante estes treinos (e a prova em si) voltei muita vez ao ano anterior e o facto de na altura estar agarrado à bicicleta. Ajuda a pôr as coisas em perspectiva.

Também ao GFD Fisioterapia e Osteopatia e ao GFD Running. Têm sido a minha casa desde que comecei a correr e onde sempre fui tratado e onde faço sempre as massagens desportivas. Sempre que precisei estiveram lá e são um grupo não só de profissionais, como de atletas, incrível. Queria no entanto individualizar um agradecimento ao Ernesto. Em momentos mais delicados ele sempre esteve lá e este fim de semana foi mais uma vez prova disso. Mandei-lhe mensagem já tarde num Sábado (já deviam ser umas 21h em Portugal) e ele prontamente, enquanto jantava num restaurante, me respondeu com uma video-chamada. Um diagnostico feito, assim, é sempre complicado mas a verdade é que ele o fez e deixou-me com algumas sugestões do que fazer para tentar mitigar o problema. Sem a ajuda dele muito provavelmente não teria sequer comçado a prova!

Depois ao Vítor Oliveira. Conhecemo-nos por intermédio da corrida e acabou por se construir uma grande amizade. Temos bastantes coisas em comum e, de há um ano e meio para cá até orientamos um podcast em conjunto (não percam um episódio futuro a falar sobre esta prova!). Amigo, estás a passar um pouco pelo que eu passei à um ano mas não tenho dúvidas que com a força de vontade que tens, quando voltares, vais vir melhor que nunca e com uma fome de correr como nunca antes. Recordes pessoais vão cair!

Mesmo por isso o principal agradecimento vai hoje, e sempre, para os pais e irmã. Durante a prova, cada vez que passava nos tapetes que marcam o nosso tempo, pensava neles e em como eles estariam a acompanhar a prova, com bem mais incertezas que eu. O apoio deles ao longo destes anos foi insubstituível e neste fim de semana ainda mais, mesmo a 5000 kms de distância. Sem isso nada disto valeria a pena 🙂

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One response to “129ª Maratona de Boston”

  1. Vítor Oliveira Avatar

    Tens tido uma evolução incrível, e quero acreditar até que já esta maratona ficou aquém das tuas reais capacidades! Expectativas gigantes para a próxima

    Um grande abraço amigo

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