Maratona de Chicago

O dia da maratona de Chicago começa cedo, ainda de madrugada. Não só a prova tem início às 7:30 como o acesso ao recinto, e aos bengaleiros, abre duas horas antes, pelas 5:30, ainda noite cerrada.

Pré-prova

Surpreendentemente, numa noite pré-maratona que geralmente se adivinha mal dormida, devo dizer que a minha foi bastante calma! Não sei se tal se deveu à confiança nos treinos – ou na relativização do sucesso ou insucesso da prova – só sei dizer que não estava com a ânsia que vivenciei nas maratonas anteriores.

Como não gosto de correrias (excepto quando é mesmo para correr!) o despertador tocou às 3:45. Tempo de sobra para tomar o pequeno almoço (um bagel com manteiga de amendoim e doce, uma banana e continuar com a hidratação por via de água e electrólitos), equipar, ir um sem número de vezes à casa de banho e arrancar para a prova. Poderia ter ido de transportes mas a distância do hotel ao complexo da prova era convidativa – cerca de 2,5kms – para se fazer a pé e uma óptima de maneira de acordar a mente e começar a aquecer o corpo, especialmente tendo em conta o frio que se fazia sentir (cerca de 5 graus centígrados).

Senti as ruas ainda muito despidas – num claro contraste com o que se veria umas horas depois – mas conforme me aproximava do local de partida começaram a aparecer participantes. Primeiro um aqui e ali até que centenas se reuniam junto aos pórticos de segurança de acesso ao local de partida. Devo aqui realçar a extrema simpatia e amabilidade de todo o staff envolvido na prova (muitos deles voluntários!) os quais tornaram toda a experiência ainda mais proveitosa.

Passada a segurança procurei logo equipar-me e deixar o saco no bengaleiro. Entre isto e a fila para a casa de banho (que se mexe sempre tãooo lentamente) sobravam pouco mais que 20 minutos para aquecer antes que os portões para os blocos de partida fechassem. No meio de uma multidão imensa lá consegui aquecer minimamente e entrar no bloco de partida ainda com tempo de sobra. Queria também ter este tempo extra para me juntar ao pacer das 3h30, que seria o meu objectivo, pelo menos durante a primeira meia maratona. É sempre bom conhecer os pacers de modo a perceber qual a sua estratégia para a corrida e se mantêm um ritmo estável ou não, se apontam para os 3h30 certos ou abaixo (neste caso eles queriam fazer 3h29, informação que me foi bastante útil no decorrer da prova).


Durante o tempo de espera até ao tiro de partida, com a apresentação da elite e o hino americano – que causa sempre aquele arrepio – o frio e o forte vento fizeram-se sentir e não fosse a camisola que tinha levado teria passado um mau bocado.

Começa a prova!

7:30 em ponto e, finalmente, o tiro de partida!! Mas só para a elite…. de maneira bastante ordeira, a organização opta por lançar os blocos à vez o que facilita muito o arranque, mas significa que, só cruzei a partida mais de 10 minutos depois. Quando oiço o speaker dizer “Corral D!” descarto a camisola – que frio aqui no início! – e após meses de treino, começa a minha 3ª maratona!!

Porque nem tudo são rosas, com a abertura do nosso bloco de partida, infelizmente, acabei por perder de vista a equipa de lebres para as 3h30. Não sei se foi distração minha ou eles terem começado rápido de mais o facto é que durante longas e largas milhas nunca mais os vi…Mas mantive-me sereno! Sabia que tinha capacidade para os apanhar mais à frente (afinal de contas o plano era mesmo esse) e acelerar agora em demasia seria um erro crasso e de novato. Gostaria de realçar também a facilidade que foi a partida desta maratona: as largas ruas, aliadas à já referida partida por blocos, resultou em espaço de chega e sobra para que nenhum participante tropeçasse e conseguisse sair logo no seu ritmo pretendido. Um exemplo a seguir.

Iniciada a prova, esqueci a ausência dos pacers e procurei chegar-me ao ritmo objectivo para a primeira metade, a rondar os 4:57/4:58.  E as milhas começaram a rolar…. com relativa facilidade (mal seria se assim não fosse!) cheguei-me ao ritmo mas o mesmo foi sempre algo instável: fosse pelas curvas a 90°, por apanhar atletas mais lentos ou ainda devido às fortes rajadas de vento que se faziam sentir o certo é que ora estava no ritmo certo ora acima. Esta tendência foi-se mantendo depois de sair da baixa, rumo a norte (nota para o quilómetro 10 com a passagem junto ao Zoo de Chicago) e ia notando que a cada passagem de milha perdia uns segundos face ao tempo alvo (no levantamento do kit pedi uma tatuagem temporária que mostrava para cada milha qual o tempo correcto com o objectivo dos 3h30). 

Uma vez mais não me precipitei e, confiante que o melhor ainda estava para vir, fui tentando manter o ritmo. Chega o quilómetro 14 onde o trajecto vira novamente para Sul, de volta à baixa, um marco mental importante.

Outra factor de extrema importância foi o apoio do público ao longo de praticamente todo o percurso, mesmo com o forte frio e vento que toldavam o dia. Cedo me apercebi que Chicago parece uma corrida temática: devido à extensão do trajecto o mesmo atravessa vários bairros típicos, do bairro Japonês ao Mexicano, passando pelo Coreano e Italiano, cada um com as suas nuances, sons e cheiros. Chega a ser emocionante presenciar, como atleta, o calor e motivação que estas pessoas transmitem.

Entretido com a variedade temática acima referida chegámos de volta à baixa de Chicago, com cerca de 20 quilómetros feitos e aí, pelas minhas contas, já ia com praticamente 40 segundos de atraso para as 3h30. Pensei que não podia esperar mais e que aquela seria a altura para começar a atacar! Sem entrar em loucuras, procurei aumentar o ritmo muito progressivamente, em perseguição do grande objectivo.

Passei pela meia maratona já com uns segundos ganhos e entrei numa zona que conhecia um pouco melhor já que era nas redondezas do hotel. Motivação extra que foi ainda reforçada quando me vi a aproximar de alguém com uma T-shirt portuguesa. Trocamos algumas impressões e vendo que ele não me acompanharia segui viagem após algumas palavras de incentivo.

Chegado ao km 25 acontece novo retorno e aqui apanhei um susto valente: senti uma quebra notória e pensei que, do nada, tinha esbarrado no muro! Baixei a cabeça, forcei para voltar ao ritmo e, felizmente, tudo passou. Ufa! Isto viria a acontecer mais umas  2 ou 3 vezes até ao final, embora com menor intensidade – e cada uma foi ultrapassada. 

Excluíndo os episódios acima referidos os 10 quilómetros seguintes foram feitos de maneira relativamente tranquila e onde fui sempre, com confiança, aumentando o ritmo e ultrapassando atletas. Durante este período não só recuperei todo o atraso que tinha para os 3h30 como já ia ganhando tempo a cada milha. Ainda não tinha avistado as lebres com que comecei mas, sabendo que eles estavam a apontar para 3h29, usei isso como factor moralizador: deviam já estar aí ao virar da esquina.

Chega o quilómetro 35 e chega também um dos pontos altos não só desta maratona como de todas as provas que já fiz: a Chinatown, com uma enchente monumental de pessoas. Aqui, e  estando eu a disfrutar tanto desta prova, levantei os braços a pedir o apoio do público e o bruá que se fez ouvir apanhou-me de surpresa. Como não ficar motivado depois disto? Cansaço, qual cansaço?

Com este boost de moral continuei a forçar e quando dei por isso já estava no último retorno, sendo que a partir daí seria quase só uma – grande – recta até ao final. Pouco antes do quilómetro 40 passei, finalmente, pelos pacers e aqui já não só estava abaixo das 3h30 como já estava em condições de cumprir o meu segundo objectivo, baixar em mais de 30 minutos o meu recorde actual, ou seja, fazer abaixo de 3h28m25s.

Dois quilómetros para o fim e nem o terrível vento me abrandou. Antes pelo contrário! Acelerei e acelerei e quando dei por isso já rodava a 4’30”. Apoio fantástico de ambos os lados e que reagia a cada apelo que eu lhes fazia. Últimas curvas à vista, das quais eu tão bem me lembrava, depois de ter visto a Sir Mo Farah fazê-las no ano anterior, rumo à vitória.

Chegada

Última curva feita e, com algumas energias ainda disponíveis, sprintei até à meta sempre de olho no relógio.

Está feita…..está feita…..está feita em 3 horas, 27 minutos e 38 segundos. E que enxurrada de emoções ao cruzar aquela meta. Os longos meses de preparação, as restrições impostas, os treinos bons e os treinos menos bons. E todos os percalços ao longo do caminho. Tudo culminou naquele único instante.


Que orgulho naquela medalha. Não só consegui alcançar, por completo, os objectivos traçados como nunca desfrutei e me diverti tanto a fazer uma prova. Fantástico. Não há sensação como acabar uma maratona. Não há sensação como a maratona.

Depois daquele êxtase todo vem o inevitável cansaço e dor. Mas isso também faz parte da maratona. E por isso anseio já pela próxima. 

Agradecimentos

Eliud Kipchoge, após se ter tornado no primeiro homem a correr uma maratona abaixo das duas horas, disse que correr era um desporto de equipa. Não podia estar mais de acordo já que, sozinho, não teria chegado aqui.

Os meus parabéns a todos os outros portugueses que participaram nesta edição de Chicago. Espero que a prova tenha superado as expectativas de cada um deles.

Agradeço aos meus amigos, em especial ao Pedro, Rodrigo, Diogo e António pelos momentos de diversão proporcionados que tanto ajudaram nos momentos mais difíceis dos treinos bem como no acompanhamentos de alguns longos. 

Ao António e à Krystel, amigos que vivem em São Francisco e que, estando em Chicago por esta altura, tão bem me receberam na cidade.

A toda a equipa do GFD – massagistas, fisioterapeutas e aguadeiros – e em especial ao boss Ernesto Ferreira, pela sua máxima disponibilidade, e ao mister António Sousa, por toda a planificação de treinos e super conselhos. A todos os colegas do GFD Running que são sempre uma fonte de motivação e inspiração fantásticas.

E por último, o agradecimento mais importante vai para a família, pais e irmã, que sempre lá estiveram a apoiar, quem em provas distantes, nos treinos longos ou em casa. Não estiveram comigo nesta maratona mas foi como se estivessem. 

Em Chicago corri sozinho mas tive-vos a todos como lebre. Obrigado!

Luís Machado

Lisboa, 18 de outubro de 2019 (artigo originalmente publico em record.pt)

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